terça-feira, 31 de maio de 2011

São os hormônios que falam por eles

O "não" que o jovem diz aos adultos é muitas vezes mera reação química

Por Içami Tiba



Uma das principais características aparentes da adolescência é que é nessa fase que o garoto começa a dizer "não". Mais do que isso. O "não" é a sua resposta pronta a todas as perguntas. "Quer tomar banho?" "Não." "Vista um agasalho porque está frio." "Não." "Vá fazer o dever de casa." "Não." É necessário pensar um pouco sobre o significado desse "não". Não se trata apenas de uma resposta recorrente. É mais do que isso. O "não" organiza o mundo interno de um adolescente. O cérebro de um rapaz nessa fase é como um exército repentinamente surpreendido pelo ataque de um inimigo – no caso, os pais com suas ordens. Apanhados distraídos no acampamento, os soldados desse batalhão precisam de um tempo para se preparar para o combate. O "não" faz com que eles ganhem tempo para essa preparação. Defendido e organizado, o comandante desse exército – seu filho – poderá até tomar banho, vestir o agasalho ou fazer o dever de casa. Mas ele fará isso porque ELE quer. Afinal, o adolescente não é mais uma criança que apenas obedece a ordens. Ele está na fase de questionar, entender e aceitar apenas o que julgar justo ou coerente. Mesmo que sua percepção do que seja "justiça" ou "coerência" pareça completamente amalucada.

Essa aparente falta de lógica ocorre porque a rebeldia adolescente tem uma causa, antes de tudo, orgânica. Mais especificamente, hormonal. É por volta dos 11 anos de idade que o adolescente do sexo masculino começa a ser inundado por uma descarga de testosterona. Esse hormônio é o responsável pelo crescimento repentino, pela duplicação aproximada da força física e pela mudança de voz no final da puberdade. Mas está também na raiz da agressividade que o jovem demonstra nessa idade. Quando reage de forma belicosa, ele não faz isso porque o mundo, os pais ou os professores sejam injustos. Ele reclama porque os hormônios assim o determinam. Eu divido o comportamento dos seres humanos em três estilos fundamentais. O vegetal, que busca a sobrevivência pura e simples. O animal, que, cumprindo o determinismo biológico, luta pela saciedade dos instintos. E o humano, inteligente, que se empenha para resolver conflitos e superar dificuldades em busca da felicidade. Esses três comportamentos coexistem em todos os seres humanos. A adolescência, com o primado dos hormônios, seria, segundo essa lógica, a fase "animal" por excelência, em que a inteligência obedece à ditadura dos instintos.

As meninas também estão sujeitas a uma descarga hormonal, que resulta num comportamento psicológico um pouco diferente. Por volta dos 9 anos de idade, inicia-se a produção de estrogênio, que provoca o crescimento para a frente, para trás e para os lados, mas muito pouco para cima. Aos 11 anos e meio surge a progesterona, que provoca a primeira menstruação – e que, no futuro, será responsável pelas funções reprodutivas. Do ponto de vista psicológico, os hormônios femininos têm características menos agressivas. A principal mudança que se nota é a valorização da vida social em detrimento da familiar. Em vez de seguir e obedecer aos pais, elas descobrem as amigas e passam a conviver mais com elas. Passam também a confiar mais nelas do que nos pais. Formam grupos e subgrupos, falam e ouvem ao mesmo tempo, unem-se fielmente e lutam ferozmente quando se sentem injustiçadas. Os hormônios também são responsáveis por uma certa confusão mental. Elas se apaixonam por seus professores de educação física, enviando-lhes delicados bilhetinhos com juras de amor eterno. Divulgam suas idéias e sensações com convicções doutorais, dão sábios conselhos e palpites, para morrer de timidez momentos depois.

Como tratar com esses seres dentro de casa? As receitas óbvias todo mundo conhece. Com diálogo, mas com firmeza, sempre impondo limites quando necessário. O fundamental, no entanto, é ter em mente que se está lidando com pessoas sujeitas a uma bruta descarga hormonal. Há vezes em que o "não" dos meninos ou o ar superior das meninas parecerão descabidos e irritantes, e filhos e filhas bradarão inflexíveis contra argumentos muitas vezes lógicos e pertinentes dos pais. Nessas horas, não há nada a fazer além de ter paciência e esperar. Um dia a adolescência passa, os hormônios se regularizam e a rebeldia cessa como um mecanismo que, de repente, perde o contato com sua fonte de energia.

Içami Tiba é psiquiatra e escritor


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