segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Divórcio - Um desafio à Igreja


As confissões de um divorciado cristão 

 "Ó Deus, não devia ter me casado com Eliana. Tanto ela como eu estávamos muito imaturos ainda. O casamento não deu certo. Os acordos que fizemos na empolgação inicial não funcionaram. Nosso matrimônio durou apenas sete anos e como foi difícil chegar até aí! onfesso que eu não deveria ter sido tão mandão como fui. 

Os pastores pregavam mais sobre a submissão da mulher ao marido (1Pe 3.1-6) do que o trato com discernimento e delicadeza que o marido deve a ela, em benefício de suas próprias orações (1Pe 3.7). 

Creio que o machismo enraizado nos pregadores unilateral e em mim mesmo me impediu de ler nas Escrituras que os maridos devem amar as suas esposas como a seus próprios corpos e como Cristo amou a sua igreja (Ef 5.25-33). Quando cheguei a entender o que é submissão feminina dentro de um amor masculino, como o de Cristo, já estávamos viciados demais para alguma mudança. 

Raramente a tratei com delicadeza. Senhor, fui muito ignorante, pois praticamente nunca me preocupei com a satisfação sexual de Eliana. Eu pensava que isso era só para homens e que a mulher era mero instrumento para os meus incontroláveis apetites sexuais. Não me deitei com Eliana quando ela emitia sinais de que desejava deitar-se comigo. Fazia-me de mal-entendido e só a procurava quando a vontade era minha e não dela. Sou obrigado a confessar que fui mais delicado com outras mulheres do que com Eliana, na presença ou na ausência dela. Em nenhum dia cometi adultério contra Eliana, mas fui longe demais com minhas amizades com outras mulheres, provocando algo insuportável para ela: insegurança, amargura, complexo e ciúmes. 

Quando as coisas foram se agravando, não dialoguei com ela, não pedi desculpas, não reconheci, pelo menos na presença dela, minha ignorância, meus equívocos, meus erros e meus pecados. Fomos nos separando cada vez mais, sem o percebermos.Confesso que fui levado a esses problemas ate à exaustão, até à ruptura irreversível, sem ter coragem e a humildade de procurar um pastor, meus amigos mais íntimos, ou, quem sabe, um terapeuta de formação cristã. 

 Agora, ó Deus, que ela pediu divórcio e se foi e não pretende voltar, e eu também já me acostumei sem ela e não quero continuar só, confesso o pecado todo, desde o início, com lágrimas, com perdas para ela, com perdas para mim e com perdas para a igreja do Senhor Jesus. Sei, pela Bíblia, que o único pecado não perdoado é a blasfêmia contra o Espírito Santo (Lc 12.10). Baseado nesse versículo e em todos os outros que prometem perdão pleno para quem confessa sinceramente seu próprio pecado (1Jo 1.9), posso esperar o teu perdão, ainda que sofra por algum ou muito tempo às conseqüências de meus desvarios? 

Posso também, no tempo certo, casar-me outra vez, com uma mulher solteira ou viúva e começar tudo direitinho, sem perder qualquer privilégio da igreja, exclusivamente por tua infinita graça, depois de confessar meu fracasso às pessoas de minha intimidade, como acabo de fazer?"

Esta confissão acima é uma ficção usada com o objetivo de levantar esta questão tão controversa que divide a opinião não só de teólogos, mas também de sociólogos e psicólogos no mundo inteiro: o divórcio. 

As separações, os divórcios têm alcançado percentuais alarmantes nos últimos dias. Os fatores que levam casais a se divorciarem são os mais diversos e a cada dia se tornam mais arraigados na formação cultural do nosso povo. A exemplo, poderíamos citar a história de uma criança de cinco anos que conversava com seu avô quando lhe disse: “Vovô, quando eu crescer, me casar e me divorciar de minha esposa, não deixarei meus filhos ficar com ela”. Percebe-se neste exemplo como esta prática tem sido assimilada com naturalidade pelas gerações hodiernas. 

Só em nossa cidade, em Ipatinga, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), no primeiro semestre de 2000 quase 6% dos casamentos terminaram em divórcio e 11% dos casais se separaram. E estas estatísticas baseiam-se em casos formais, registrados em cartório, sem contar aqueles que se separaram informalmente. Diante deste fato tão debatido e polemizado não podemos deixar de questionar; haveria causas que justifiquem o divórcio? 

E a Bíblia, o que diz sobre o divórcio? 

 A instabilidade da família é um dos males mais devastadores que atingem a sociedade ocidental nos dias de hoje. Uma pesquisa da revista Veja no ano passado aponta a infidelidade como a principal inimiga do casamento. A infidelidade ainda é, entre outras, a maior causa do divórcio. E, na verdade, parece que esta realmente é uma grande ameaça aos casais. A infidelidade é gerada por fatores, que em si mesmos, são também a razão de boa parte dos divórcios. J. Allan Petersen, em seu livro “O Mito da Grama Mais Verde”, diz que as principais causas da infidelidade e divórcio são a imaturidade emocional, conflitos não resolvidos e necessidades insatisfeitas. Ele propõe em seu livro até um Teste Matrimonial Para Esposas e Maridos com o objetivo de preservar o casamento prevendo certas tendências que podem levar casais a e divorciarem. 

 Segundo o pastor Cléber Isac da Igreja Reavivamento Assembléia de Deus, nada justifica o divórcio. Ele argumenta, “o que Deus ajuntou, não o separe o homem”. Segundo ele, o casamento não se firma sobre um mero ato cerimonial, nem tampouco sobre a mera efetivação de uma lei humana com registros civis, mas o casamento é a união de corpos feita por Deus. E o que se faz hoje, é tornar publico esta união entre um homem e uma mulher; e por esta razão, ele acredita que uma vez unidos pelo sexo, o casal, não tem justificativas para se separar. 

 O doutor Donald Stamps, escritor das notas explicativas da Bíblia de Estudo Pentecostal, afirma que o casamento é vitalício e que deve existir até que a morte os separe; no entanto, Jesus fez uma exceção em Mt 19. 9 quando disse: “Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, a não ser por causa de infidelidade, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério”. Ele entende a palavra grega porneia, usada no texto original, como tendo também o sentido de infidelidade conjugal. E neste particular, para ele o divorcio é aceitável quando o cônjuge traído se recusa a perdoar o que traiu e opta pelo divórcio. Mas admite que no Antigo Testamento, a carta de divórcio não era usada para separar casais que adulteraram, mas para anular o casamento (Dt 24.1) uma vez que o noivo descobrisse que a sua recém esposa não era mais virgem; pois no caso de adultério, a dissolução do casamento se dava com a execução das partes culpadas (Lv 20.10; Ex 20.14). 

Mas, e caso ocorra à infidelidade conjugal, qual deve ser a posição do cônjuge traído? 

O Pastor Cleber Isac, tomando o texto de 1Co 7.10,11, assevera; “Ninguém é obrigado a conviver com uma pessoa indesejável, no entanto, estará irremediavelmente obrigado a viver só, enquanto seu cônjuge viver, caso decida separar. A solução é reconciliar ou do contrario ficar só”. Seria esta uma posição radical demais? 

O Reverendo Paulo Ribeiro Fontes, da Igreja Presbiteriana Filadélfia de Governador Valadares, falando a respeito deste tema, divórcio e novo casamento (Rhêmata) afirma também com base em Mateus 19.4-6 a indissolubilidade do casamento. Havia lideres naquela época que entendiam que o divórcio por qualquer coisa interpretando Dt 24.1 de forma liberal, já outros entendiam a expressão “cousa indecente” aplicada somente ao adultério e Jesus (explica) não se preocupa em justificar a nenhum dos grupos, mas com sua sabedoria evoca o texto de Gênesis e reafirma a indissolubilidade do casamento. Mas como fica a situação dos divorciados? O reverendo Paulo entende que o divórcio é um pecado como qualquer outro que requer confissão e arrependimento, no entanto, ele não radicaliza a questão. 

O apóstolo Paulo diz que aquele que se separa, não se case ou reconcilie-se (1Co 7.11). Mas e caso a pessoa já tiver se casado novamente? Terá que romper o segundo casamento? Ele acredita que não pelas seguintes razões: Primeiro porque o divórcio e o segundo casamento não são pecados imperdoáveis e, neste caso, ele recomenda o bom senso (Provérbios 2; 11,12), pois romper um segundo casamento para retornar ao primeiro ou ficar sozinho não é coerente com o bom senso. E finalmente, se houver arrependimento e confissão sincera Deus certamente abençoara este segundo casamento. E ainda ele cita o exemplo do casamento abominável de Davi e Bateseba, que veio a ser depois abençoado pelo Senhor e desta união nasceu a Salomão. 

 Em vista da realidade de um tema tão difícil, a maioria das igrejas esta investindo atualmente maciçamente em trabalhos com casais que visam favorecer a convivência no casamento e salva-lo do divórcio. Dentre os diversos grupos organizados que tratam deste assunto, encontramos o “Casados para Sempre” que é um ministério internacional que visa salvar casamentos. E quase todas as igrejas hoje exploram o tema família seja através de grupos familiares, de acompanhamento familiar, do aconselhamento pastoral e etc… 

Gostaríamos de terminar este nosso artigo, evocando o texto de (Mt 19:8): “Disse-lhes ele (Jesus): Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim.” E com base neste texto afirmar que o divórcio não faz parte do plano original de Deus para o homem, mas é algo que veio a existir por causa da dureza do coração humano. 

Wemerson Marinho 
Revista Renascer

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